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20/09/2016 07:43
ESCRITURAS DE KEYANE DIAS.

 Acesse:https://alemdasparedes.wordpress.com/

Epifanias gerais

– Como é o nome dessa flautinha mesmo?
– É pife, Seu Zeca. Conhece?
– Eu tenho uma, mas é diferente. Tenho uma que sopra na pontinha. 
– Essa foi feita pelo Seu Zé, lá de Pernambuco. O senhor sabe tocar?

Ele não respondeu. Ele tocou! Tocou na embocadura de quem não precisa de técnica, de pormenores. Como se a força da epifania sertaneja nordestina também fosse sentida por lá, no sertão de Minas Gerais. Seu Zeca toca pife, sem nem saber o que é… Seu Zeca não toca música, toca o som. Os dedos enrugados dedilhando fora dos furos, o sopro descompassado rodopiando entre os dedos… Ao tocar, se alembrou da primeira vez que tinha ouvido e avistado essa flautinha, tocada por um jovem caminhante que por lá sempre passa. Nunca se esqueceu!

Seu Zeca toca. Toca sim! E o toque, que ressoa na ventoinha daquele canudo de taboca, dá pra ouvir nos olhos, dá pra sentir no sorriso de uma alegria genuína de quem tanto viveu que menino é. Quem dera eu, aprendiz de pife, ter a mesma sede livre de hesitações. Naquela manhazinha com cheiro de café, aprendi com ele, assim como aprendo com meus avós, com os velhos e velhas que me abraçam no viver. Sempre senti vontade de ser velha logo. Na verdade, já sou, em um lugar nem tão distante assim. Mas, com os velhos e velhas, tô aprendendo a ser jovem.

Salve Seu Zeca, que agora anda pelos areiais dos Gerais ressoando epifanias. O pife pernambucano de São José do Egito, feito pelas mãos de Mestre Zé do Pife, segue entremeado agora nas veredas cerratenses mineiras, nas mãos de Seu Zeca, marido de Geralda, anfitriões da velha Fazenda Menino. Salve Seu Zé do Pife, mestre de tantas e de tantos. Quem dera ver o encontro de Zeca e Zé. A teia é viva e trilhada…

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Crônica #1

Há um tempo passado por vezes presente, conheci alguém que ria de mim só porque sou poeta. Qualquer verso ou prosa floreada – algo muito corriqueiro no falar de uma poeta – vinha seguida de um sorriso zombador: “esses poetas”, dizia caçoando sem disfarçar. Nunca entendi, mas me parecia que pra ele ser poeta é um estado vulnerável de existir. E num é que ele tem razão! Amanhecer pássaro, ver um vitral numa cebola, a felicidade na distração e Deus num vagalume é mesmo uma vulnerabilidade gravíssima ao encantamento. Num mundo pra lá de endurecido, encantar-se realmente pode ser perigoso.

Mas o poeta não apenas se encanta, o poeta também tem o poder de encantar. E aí que mora sua inabalável força, a sua espada de condão, a sua armadura de água de cheiro. Ser poeta é mesmo perigoso e vulnerável, mas mexer com poetas também é. De tanto interpretar as entrelinhas e psicografar a existência, poetas são capazes de desmontar o mais endurecido dos castelos de pedra, que protegem os mais brutos egos, até mesmo os que fingem pra si serem impenetráveis. Já será tarde! Todo poeta sabe que até mesmo as pedras respiram e que a poesia é a sutil e encantada quintessência que adentra nos mais pequenos poros só para provocar a poesia alheia.

A sutileza é vulnerável e bem perigosa! Quem zomba de um poeta, sabe bem que sente saudade da poesia não liberta de si.

Foto: Mariana Cabral

 

 

ALEM

Keyane Dias é poeta e caminhante. Neta e filha de nordestinos retirantes nascida em Taguatinga (DF). Cresceu por ali, no Cerrado do Planalto Central, nas periferias onde habita o povo que construiu a capital “sonhosa”. É educadora e comunicadora cultural, estudante da Pedagogia Griô, aprendiz da Capoeira Angola, dos movimentos, naturezas e matérias-primas que curam. Integra o Movimento Cultural Mercado Sul Vive e o projeto Eu Livre Educação e Saúde. Em 2014, co-criou a Pareia Comunicação e Cultura.

Já bateu algumas “cancela na estrada do desengano”, aprendendo com elas a sintonizar o que pulsa em sua essência. Suas poesias nascem em rimas, inspiradas na vivência com as tradições orais e sua gente. Mas também são soltas, metrificadas pela Bem Querença que conduz sua escrita. Brinca com as palavras em manuscritos e publicações independentes, lançando em 2015 seu primeiro livro artesanal: Desaverso. Recordou-se poeta ainda menina, familiarizada com repentes e cordéis que ouvia dos avôs. Desde então, se desavessa para desaversar palavras.

“Jovem enquanto velha, velha enquanto jovem.”

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Foto: Mariana Cabral (Insta: @marianacvcabral)

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Thalyta Ribeiro de Oliveira Incrível seus projetos, tanto de fotografia, quanto com a galeria e as produções audiovisuais. Apenas continue!!
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