Jornal Olho de Águia - Ano 00 - Brasília - Distrito Federal - Julho/ Agosto - 2000

MESA REDONDA

O R L A N D O

B R I T O

Foto: Ivaldo Cavalcante

 

Entrevista

Fale um pouco sobre sua trajetória na profissão, como publicações e prêmios recebidos.

 

Em 1965 comecei a trabalhar na sucursal brasiliense do jornal Última Hora, do Rio de Janeiro. Depois, trabalhei em O Globo, durante doze anos. Em seguida, a fui para a revista Veja e para o Jornal do Brasil. Fui editor em ambos. Após, dirigi Caras e, atualmente, a minha própria agência, a ObritoNews. Tenho dois livros individuais publicados (Perfil do Poder, 1982, e Senhoras e Senhores, 1992). Participação em mais de 20 outros livros coletivos no Brasil e no Exterior. A serem publicados, ainda esse ano, Poder, Glória e Solidão e Índio. O primeiro fotógrafo brasileiro a receber o World Press Photo Prize da Fundação Van Gogh, de Amsterdam, em 1979. Onze vezes o Prêmio Abril de Fotografia, além de outros prêmios de aquisição de entidades de cultura, como o Museu de Arte de São Paulo-MASP, por exemplo. Prêmio Vitae de Fotografia.

 

Qual o seu livro de fotografia preferido ?

 

Sou assíduo freqüentador de livrarias, especialmente as da área de arte e possuo boa biblioteca de livros de fotografia. Tenho preferência, no entanto, pelas publicações que tratam de fotojornalismo e, mais particularmente, os de fotojornalismo. Tenho preferência por vários, mas cito aqui três: American Politicians, The Museum of Modern Art de Nova Iorque (uma rica coleção de fotografias da vida política dos Estados Unidos, feita por vários fotógrafos americanos); Jefes, Heróes y Caudillos, Fondo Casasola (um importante acervo sobre a vida republicana do México no fim do século 19 e início do século 20, feito por Agustín Casasola, retratando os políticos e militares da época), e One Mind's Eye, de Arnold Newman (um belo conjunto de portraits de personalidades do Poder nos Estados Unidos).

 

O que você acha das revistas de fotografias brasileiras?

 

As revistas de fotografias brasileiras são poucas e ruins. Na realidade, não chegam a ser revistas de fotografias. Escrevo mensalmente uma coluna sobre Fotografia na Revista Imprensa. Gostaria de fazê-lo para uma revista de Fotografia.

 

No Brasil há várias agências de fotógrafos. Você se desligou da revista "Veja" e por último da revista "Caras" e montou a ObritoNews. Quais os seus projetos daqui para frente?

 

Depois de muitos anos trabalhando em Veja, resolvi deixar a relação de trabalho convencional no Brasil, baseada em emprego e salário. Abri a ObritoNews, que tem como objetivo produzir matérias nos moldes de uma agência moderna, competitiva e independente, com prestação de serviços para jornais, revistas e órgãos e entidades dos mais variados tipos, consumidores de fotografias e texto, enfim. Ao inventar a ObritoNews e sair do dia-a-dia, trabalhando para revistas e jornais, eu pretendo também dar maior atenção à iniciativa de produtos próprios, como livros e até revistas. E assim está sendo feito. Tanto que dois livros estão em fase de edição duas revistas estão sendo trabalhadas.

 

O livro da Paula Simas, "100 Fotógrafos Brasileiros - 500 Anos do Brasil", desencadeou uma grande discussão, via web. Chegaram até a propor uma "CPI". Chegaram a comentar que o livro foi encomendado pelo governo FHC. O livro não traz imagens de chacinas, tampouco de meninos de rua. Enfim, é uma publicação que não retrata a exclusão social. Qual sua opinião sobre o livro de Paula Simas?

 

Embora tendo participado do livro 100 Fotógrafos Brasileiros, coordenado por Paula Simas, não gosto do resultado. Não creio ter sido o trabalho encomendado por governos e, menos ainda, haver por trás de sua existência qualquer idéia que o condene enquanto publicação. No exterior há livros parecidos. Imagino que sua saúde intencional é íntegra. Só não gosto do resultado editorial. Pífio. Uma bela idéia mal resolvida.

 

Você tem acompanhado chat de fotografias pela Internet?

 

Sim, acompanho os chats sobre Fotografia na Internet. Gosto do site http://www.photosynt.net/

 

Como você avalia o avanço das câmaras digitais no fotojornalismo?

 

Sobre o avanço da fotografia digital, sempre imaginei que esse momento chegaria. E chegou, embora ainda não por completo. Percebo que todo o complexo de equipamentos (câmaras, objetivas, impressoras, gravadoras, visualizadoras, arquivadoras, etc) para o completo sucesso do processo ainda não é o que o mercado profissional necessita e espera. Creio que em breve o mercado de imagens impressas se dividirá. Entre os Digígrafos e Fotógrafos. Dois tipos de gente que vai trabalhar com imagens. O primeiro, aqueles que trabalharão com imagens digitalizadas e que gravitarão num mercado cada mais ágil e veloz da mídia. O segundo, aqueles que ficarão com a tradição de trabalhar com a luz agindo sobre filmes. Uns, terão o objetivo de produzir para um mercado imediato, volátil. Estes, serão anônimos ou de autoria provisória, praticamente sem opinião. Outros, serão verdadeiros autores, que produzirão para um público mais atento e mais intencional. Umas imagens serão expostas nas ágeis telas do computador. Outras fotos irão para paredes do museu e dos colecionadores.

 

O eixo Rio-São Paulo concentra projetos relacionados a fotografia, deixando de fora a grande maioria dos estados. Na sua opinião, a fotografia é nacional, mundial ou universal?

 

Claro que a Fotografia, enquanto linguagem, é universal. Basta dizer que mais de noventa por cento das informações que chegam ao cérebro humano, chegam através da imagem. Logo, a Fotografia se beneficia dessa propriedade, diante de outros sentidos. Obviamente, os negócios e os interesses - e desinteresses - existem. E assim é, também, na Fotografia. Nessa "luta", Rio é Rio e São Paulo é São Paulo. Assim como Brasília é Brasília, Madri é Madri e La Paz é La Paz. São nichos que se formam, cada um com sua características. Não creio existir uma combinação de que fotógrafos de um lugar façam barreira a outros.

 

Você coordenou a última campanha do presidente Fernando Henrique. Quanto se cobra para fazer uma campanha presidencial?

 

O segundo grande trabalho da agência ObritoNews foi o contrato para fazer a campanha de reeleição do candidato Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Um trabalho dessa categoria é interessante em muitos aspectos. No aspecto jornalístico e empresarial. O fato de estar no front dos grandes acontecimentos do País nos últimos 35 anos, me fez acostumar a encarar com muito profissionalismo qualquer tipo de trabalho. Assim, com esse contrato, como poderia ter sido para qualquer outro. Fotógrafos têm paixão pelo trabalho e raramente por causas. Quanto a remuneração a ser cobrada numa campanha eleitoral: varia. É detalhe que depende de uma série de combinações técnicas e comerciais. Decorre de acertos sobre a exata prestação de serviços que o candidato precisa e que a agência oferece. É uma conta que se faz, baseada na convencional equação de direitos e deveres entre duas partes que negociam.


e-mail: obrito@tba.com.br