Jornal Olho de Águia - Ano 01 - Brasília - Distrito Federal - Janeiro/Fevereiro - 2001

MESA REDONDA

O R L A N D O

B R I T O


Foto: Ivaldo CavalcanteVidal Cavalcante

Meu caro Ivaldo Cavalcanti,

Muitos amigos têm me escrito, manifestando solidariedade e preocupação, com relação à agressão que um determinado entrevistado do seu jornal --Olho de Águia-- fez a mim, em entrevista. Gostaria de pedir a sua colaboração, no sentido de colocar em seu site a resposta que tenho dado a eles e minha opinião sobre essa desagradável questão:


Muitos me perguntam se li a tal entrevista. Na verdade, acho que li, porque as palavras que lá estão são praticamente incompreensíveis, devido à dificuldade que o tal Bittar possui em lidar com a língua portuguesa e com o próprio raciocínio.


Bittar chama fotógrafos de digibobos, não é? Não entendi. E diz que eu, Brito, deveria ficar calado. Eu não sabia que está agora mais preocupado em fazer o papel de censor do que exercer sua quase função: tomador de conta dos fotógrafos do jornal em que trabalha.


Sempre li, sempre conheci e sempre fui adepto das novas tecnologias, em especial a fotografia digitalizada. Por estar atualizado todo o tempo com a modernidade, eu não poderia deixar de, inclusive, adotá-la como meio de trabalho, como acontece na minha empresa, onde temos várias --eu disse várias-- câmaras digitais. E garanto que sabemos, todos que comigo trabalham, operá-las com muito maior capacidade do que esse senhor, conhecido por seu velho recalque e desprezível sentimento de inveja em relação àqueles que sempre fizeram sucesso.


O que escrevi na Revista Imprensa é que, com a chegada dessa nova maneira de gravar com imagens, surgiu também uma nova palavra, um neologismo: digígrafo. Escrevi que Henri-Cartier Bresson, por exemplo, com uma simples e mecânica Leica consagrou-se no século que agora termina.


Fiquei triste em ver alguém que se diz do mercado jornalístico, se preocupar com o "salário de ministro" de alguns fotógrafos. Imaginei que, ao contrário, fosse se preocupar com o salário de gari que, infelizmente, alguns companheiros percebem.


Quanto ao indigitado Bittar estar temerário pelo futuro daqueles que brilham com fotografias, numa possível alusão a mim e a outros fotógrafos (como os consagrados Pedro Martinelli, Evandro Teixeira e outros), tenho a dizer o seguinte: dispenso, com toda segurança, tal preocupação. Comiseração, ou seja, pena, tenho eu em relação a ele, que sempre sonhou em aprender a bater retrato. Para lembrar, uma coincidência, Evandro e Martinelli publicaram neste ano, dois importantes livros de fotografia no Brasil. Até sugiro ao senhor Bittar que procure melhorar seu minúsculo conhecimento sobre o tema, apreciando-os, ao invés de preferir desconhecê-los.


Uma coisa, no entanto, lhe deve ser reconhecida. O espírito de luta e tenacidade para permanecer no meio fotográfico. E desde os tempos em que, esse senhor se mostrava exímio bajulador à minha procura, em busca de um emprego. Emprego, diga-se, que lhe ofereci devido ao meu absoluto senso de humanidade, grande benevolência, solidariedade humana e misericórdia. Lamentei muito, depois, saber que o referido senhor não conseguira manter-se, por extrema falta de condições profissionais.


Eu poderia perder mais tempo na defesa dessa desagradável agressão que sofri. Mas tenho muito trabalho, especialmente porque estou envolvido com o fechamento de dois livros que estarei lançando ano que vem. Temo, inclusive, que o sucesso das duas obras poderá, mais um vez, fazer morrer de inveja alguns pobres diabos.


Obrigado,
Orlando Brito

e-mail: obrito@tba.com.br

Nota do Editor

"Quanto aos salários de garis"

Companheiro Brito,

Infelizmente quem deveria se preocupar com salários dos fotógrafos são alguns editores de fotografia (caciques) que chefiam suas respectivas equipes. Eu infelizmente, nos anos que passei pelos Jornal de Brasília (9 anos) e Correio Braziliense (7 anos), sempre recebi o pior salário da equipe, mas mesmo assim tenho a honra de lhe dizer que fui eu que ganhei os maiores prêmios de fotografia da história dos jornais que trabalhei. Também nunca tive o "status" e nunca indicaria fotógrafos feitos de "provetas", "genéricos", "transgênicos" e "biônicos" (você sabe que isso acontece com grandes nomes daqui de Brasília) que proliferam-se nas agências e jornais do fotojornalismo Brasiliense.

Ivaldo Cavalcante