Jornal Olho de Águia - Ano 02 - Brasília - Distrito Federal - Setembro/Outubro - 2001

REFLEXÃO

 

L U I S.
A C H U T T I

Foto:Arquivo pessoal


A Fotografia e o Olho

Caríssimos fotógrafos, professores, alunos, iniciados, iniciantes e interessados em geral. Em primeiro lugar gostaria de louvar a presente iniciativa que procura fazer de diversos ângulos o retrato atual do ensino da fotografia. Gostaria também de agradecer à minha colega professora Umbelina Barreto a lembrança do meu nome, o que vem provar que, quem não é visto também pode ser lembrado.

Assim que recebi por e-mail o convite do Japa para participar deste evento, ainda que a distância, fiquei pensando de que forma eu poderia ser útil, embora sem poder ver nem ser visto, sem poder perguntar e nem responder. Concluí pelo caminho mais óbvio, relatar muito brevemente minha experiência de três anos vivendo em Paris, tendo passado da condição de professor de fotografia do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul à de aluno de doutorado da Universidade de Paris 7. 

Meu orientador de tese, directeur como se diz aqui, professor Arlaud, é cineasta e dirige um laboratório da antropologia visual. Ele é professor do seminário chamado “Antropologia visual do mundo contemporâneo” que tem como objetivos discutir questões teóricas da antropologia visual e iniciar os alunos de maîtrise na prática do vídeo na perspectiva da realização de trabalhos etnográficos. O professor Arlaud, que não é fotografo, defende o ensino da fotografia mesmo para aqueles alunos que se dizem interessados apenas em vídeo. Ele tinha como colaboradora uma fotógrafa americana chamada Michelle Vignes, que começou como secretária de Cartier-Bresson, e acabou abandonando o mestre para ser ela mesma fotógrafa.

O meu orientador defende a idéia de que o ensino da fotografia é também importante para o ensino posterior do vídeo ou do cinema. Segundo ele, isto fica evidente se comparados os primeiros resultados das aulas práticas em vídeo de alunos que passaram pela fotografia com os que não passaram. “A qualidade da câmera é outra”, como ele diz.

Já no fim do meu primeiro ano em Paris, o professor Arlaud convidou-me para dar aulas no lugar da sra. Michelle que, doente, estava impossibilitada de sair dos Estados Unidos. Um pouco surpreso, aceitei o convite e fiquei responsável por iniciar o seminário que tem como objetivo final o ensino do vídeo, como eu havia dito. Os trabalhos práticos que são feitos em paralelo com algumas discussões teóricas são realizados no mesmo bairro em que fica a universidade. Primeiro com a fotografia e depois com vídeo, é proposto aos alunos que busquem contar algum aspecto do cotidiano do bairro em que fica a faculdade – o  artesão que repara violoncelos, violões e violinos quase ao lado, a florista da esquina, os cafés, as praças, os colégios etc. As saídas dos alunos são seguidas de apresentação e discussão dos resultados, momento em que reforçamos os aspectos técnicos anteriormente tratados, assim como discutimos questões teóricas do fazer etnográfico – do trabalho de campo em antropologia.

Nem todos os alunos vão fazer seu trabalho final de conclusão da faculdade inscritos na perspectiva da antropologia visual, muitos vão produzir monografias, digamos, tradicionais, e alguns vão se interessar por um trabalho associando a produção de um vídeo. Eu tenho conseguido, com o tempo, roubar uns poucos alunos para a fotografia.

Ontem estive no estúdio do Arlaud que está montando no computador seu próximo filme sobre os caminhões do Paquistão. No Paquistão, os caminhões são diferentes, todos feitos em madeira e decorados com pinturas, personalizadas ao gosto dos seus donos. São talvez a propriedade mais cara aos caminhoneiros paquistaneses. Verdadeiras casas ambulantes, os caminhoneiros carregam o mundo consigo. Os caminhões são inteiramente fabricados em oficinas bizarras em que se misturam mecânicos, marceneiros, eletricistas, soldadores e artistas. Em todos os caminhões, em meio aos mais variados desenhos, há a pintura de um olho, decoração fundamental para dar sorte, espantar o mau olhado. O Arlaud me leu a tradução da cena que estava montando: enquanto a imagem mostrava um homem martelando um pára-choque, escutava-se uma discussão de vários outros que estavam ao lado tratando do preço da reforma. Diziam para o cliente que, se ele pagasse pouco, teria o desenho de um olho triste, mas, se quisesse um olho de último tipo, um olho alegre, contente, custaria mais caro.

Caríssimos, nós, fotógrafos, andamos carregados de imagens como os caminhoneiros do Paquistão, levamos o mundo conosco, mas somos também, de certa maneira, como os artistas das oficinas paquistanesas, somos desenhistas de olhos. Um olho contente tem outro preço.

Em tempo: O preço do olho, não há aqui nenhuma alusão à guerra, se é que pode-se chamar assim, mesmo porque Arlaud terminou de rodar seu filme no mês de junho deste ano.


Professor Arlaud em seu estúdio, como baú paquistanes e o Olho ao fundo (Luis Achutti)

Obrigado pela atenção de vocês. Achutti, Paris, 11 de outubro de 2001 (um mês depois que o mundo mudou).

 

e-mail: Lachutti@aol.com