Jornal Olho de Águia - Ano 02 - Brasília - Distrito Federal - Novembro/Dezembro - 2001

DUDA BENTES    
DUDA BENTES

MESA REDONDA

 

 

 

Entrevista produzita por Ana Cláudia, estudante de Comunicação da Universidade Católica de Brasília

MARCONE GONÇALVES
 MARCONE
GONÇALVES

Nesta edição, a Mesa Redonda conta com a participação de  Duda Bentes  e Marcone Gonçalves,  professores do Curso de Comunicação da Universidade Católica de Brasília (UCB)  que trazem a visão da academia sobre os dilemas do fotojornalismo brasileiro.

 

 

1 - Como vocês avaliam o ensino do Fotojornalismo nas Universidades Brasileiras?

Duda Bentes - Não temos um estudo preciso para avaliar o ensino do Fotojornalismo nas Universidades Brasileiras. Temos, no entanto, alguns indicadores que nos mostram que a disciplina tem contribuído para a formação dos novos profissionais do jornalismo. Tradicionalmente, o Fotojornalismo, enquanto disciplina acadêmica tem dado prioridade a formação técnica do estudante negligenciando as questões conceituais. Essa tradição tem muito a ver com a prática do laboratório e uso de equipamentos no tratamento da informação. Entendemos que a técnica fotográfica seja fundamental, principalmente quando esta é a primeira e única experiência do aluno com a fotografia, mas, particularmente, entendo que a fotografia de imprensa tem que primar pelo seu caráter jornalístico, e aí, me interessa mais o conteúdo do que a forma, isto é, como professor de fotojornalismo, dou ênfase à busca da informação jornalística em detrimento ao puramente estético.

 

Marcone Gonçalves-  O fotojornalismo padece de um incompreensão crônica tanto no meio profissional como no meio acadêmico. Os professores da área têm a árdua tarefa de convencer os alunos a se engajarem nas discussões e práticas proporcionadas pela disciplinas e convencer o curso da importância de se ter condições materiais adequadas para suas aulas. Não é fácil, mas o conhecimento sistemático gerado na área vem dando outro perfil aos profissionais que ao contrário dos antigos jornalistas - alguns inclusive que elaboram o Provão do MEC - não confundem mais uma infografia com uma fotografia.

 

2- Em nossa tradição jornalística, o fotojornalismo está calcado em uma concepção de subordinação da imagem ao texto. Como vocês encaram este problema?

Duda Bentes - Com muita paciência e estudo. Desde a antigüidade que a busca do conhecimento privilegia o conceito em relação ao empírico. A fotografia de imprensa, enquanto prática jornalística, depende de um referente físico e esta dependência faz da representação fotográfica algo pontual localizada no tempo e no espaço. Ela não poderá representar um conceito sem deixar subjacente a subjetividade de seu operador. No que se  refere à nossa tradição profissional, o repórter fotográfico, na maioria das vezes, é visto como um técnico que resolve o problema da produção de imagens para ilustração, sem distinguir seus significados de enfeitar uma matéria e fazer ver o fato jornalístico. A diferença entre o repórter fotográfico, um profissional de nível técnico, e o repórter de texto, com formação superior, impõem uma hierarquização das formas de representação, que não são compatíveis com as responsabilidades de todo e qualquer jornalista. Na prática, no entanto, os repórteres fotográficos têm se mostrado dignos de suas profissão, muitas vezes, apresentando a realidade social para os novos jornalistas.

 

Marcone Gonçalves- Ao conduzir uma turma de futuro jornalistas na produção do jornal laboratório a maior parte deles - especialmente aqueles que passaram de maneira negligente pela disciplina de fotojornalismo - percebe que um jornal com assuntos abrangentes sem foto é quase como um telejornal sem áudio. A prática mostra claramente que esse problema tornou-se falacioso e não é à toa que nas sucursais os salários dos fotógrafos costumam muitas vezes superar a média da redação. No caso do Brasil, a subordinação ocorreu por um motivo econômico. Fazer cobertura fotográfica é caro, principalmente quando estritamente profissional.

Agora, corremos o risco - com a cultura cada vez mais iletrada disseminada pelos meios de comunicação - de vivermos uma situação inversa: a ditadura do projeto gráfico bonito favorecido por uma dezenas de recursos de design. O resultado é que a subordinação da imagem ao texto desaparece para dar lugar a subordinação da imagem fotográfica e do texto à infografia. O jornal fica parecido com bicicleta de cigano, todo decorado. As vendas aumentam, o jornal bate a concorrência, mas quem apanha mesmo é a informação, como podemos perceber muitas vezes nas matérias sobre saúde, clima, nas entrevistas.

 

3. Uma discussão muito presente na universidade é o limite entre a fotografia de imprensa e infografia, dois tipos de imagens amplamente utilizadas em nosso jornais. Como diferenciar estes dois conceitos?

Duda Bentes - Antes de ser conceitos, a fotografia de imprensa e a infografia precisam ser pensadas como formas de expressão da mídia impressa e, recentemente, da mídia eletrônica. A fotografia de imprensa pressupõe o fotógrafo como repórter enquanto a infografia vem revigorar o trabalho do artista gráfico dentro da redação. Ambos são jornalistas buscando interpretar os acontecimentos de seu tempo. Como seus colegas do texto, todos estão subordinados aos mesmos valores profissionais expressos no Código de Ética dos Jornalistas Profissionais. Nesse sentido, o que importa é que as informações veiculadas respondam ao interesse social e sejam de natureza pública.

 

4 - Com a chegada de novas tecnologias, são oferecidas novas possibilidades de ajustes e retoques na fotografia que podem levar a produção de novas imagens, muitas vezes até irreais. Que risco corremos ao introduzir esta prática no meio jornalístico?

Marcone Gonçalves- A infografia está minando o jornalismo. Graças a ela podemos ler uma informação em segundos juntando olhos, retrancas, títulos, fotos, tabelas. O resultado faz lembrar o Woody Allen que fez um curso de leitura dinâmica e leu "Guerra e Paz" do Tolstói em duas horas. "Parece que o livro falava da Rússia", comentou depois. Esse modelo tecnológico baliza a produção do noticiário da Internet, também. O objetivo é tornar a leitura do jornal prazerosa o que é uma excrescência já que ela devia ser cada vez mais informativa. Os meios estão aí, mas o objetivo - agradar o leitor - vem deturpando as notícias.

 

Duda Bentes - Estamos sempre correndo o risco de errar, de fazer algo mal feito, de praticarmos uma impropriedade. Minimizamos o risco quando temos bem claro os valores que devem prevalecer no processo de nosso trabalho. A precisão e a correção devem ser o ponto de referência para o jornalista e para sabermos o que é certo ou errado precisamos de uma realidade concreta, normas, leis e regras precisas para nos orientarmos. Nesse aspecto, a escola tem sido o forum privilegiado para a pesquisa, debate e experimentações, de modo a retornarmos para a sociedade nossas propostas conceituais e o aprefeiçoamento das práticas profissionais.

 

5- Vem se observando uma tendência dos jornais de contratarem repórteres de texto que também desempenhem o papel de repórtes-fotográficos. Há os que acreditem que isso pode representar o fim do fotojornalismo. Que vantagens e desvantagens podem existir no exercício desta dupla função?

Marcone Gonçalves - Isso tem um nome: exploração. É inevitável?Talvez, especialmente por conta da profusão dos canais de divulgação. Porém, acho que isso vai valer apenas para os sites mais pobres e os jornais não profissionais. Não vejo nenhuma vantagem em fazer do jornalista um faz-tudo. Uma coisa é o jornalista dominar o processo dentro de um veículo (pauta, produção, apuração, escrita e edição), o que o torna um repórter total. Outro é ele se tornar um peão da notícia, que escreve para rádio, jornal, TV, internet de uma mesma empresa. Pode funcionar, mas tenho minhas dúvidas quanto ao qualidade da informação que sai de um sujeito desses por mais cabelos brancos que possua.

 

Duda Bentes- Enquanto dupla função, pensamos as diferentes esferas de representação da realidade que exige conhecimento específico de cada uma e disponibilidade de tempo para a sua boa execução. Da mesma forma que um único repórter pode apurar os fatos através das diferentes linguagens, ocorrem nas maiorias das vezes que os fatos se desdobram, exigindo a constituição de uma equipe para a coleta das informações, cada uma com sua especificidade, em tempo e espaços distintos, impondo a especialização do jornalista como repórter fotográfico, repórter de texto etc. Por outro lado, a fotografia enquanto forma de expressão deve ser facultada para quem dela fizer uso e não faz sentido proibir o repórter de texto de produzir suas imagens e com isso assumir a condição de repórter total. Devemos lembrar também, que ao repórter fotográfico se exige o poder da redação para que sua fotografias possam ser acompanhadas das informações que permitam a correta percepção e interpretação dos fatos observados e representados fotográficamente. Podemos concluir que o fotojornalismo em si não corre risco de seu fim, muito pelo contrário. Existe, no entanto, a discussão do fim do fotojornalismo como espelho da realidade, a idéia de que a fotografia de imprensa é uma questão técnica ou que a ilustração deva atender unicamente à questões estéticas. A fotografia de imprensa, enquanto representação fotojornalística, deve primar pela qualidade da informação e, como já dissemos acima, esta tem que se pautar pela sua natureza pública e interesse social.

ENTREVISTA REALIZA POR ANA CLÁUDIA    
anaclaudia80@hotmail.com

Marcone Gonçalves é professor da Disciplina Edição Jornalística
Duda Bentes é professor da disciplina  Fotojornalismo