Perfume de GabiA primavera estava no fim.. às vezes.. no final da tarde caía uma chuva rápida.Assim, eu abria a janela do meu quarto para que o perfume das flores e o cheiro gostosode terra molhada, vindos do jardim, entrassem na casa. Com o passar das semanas aschuvas se tornaram frequentes, os ventos sopravam mais fortes e foi nessa época denoites frescas e perfumadas que conheci Gabi...Eu tinha saído para encontrar amigos, beber um pouco de cerveja e fumar algunscigarros adocicados na famosa praça do D. I., perto do centro de Taguatinga. Os maiscultos desocupados da cidade se encontravam lá, leitores dos mais reconhecidos nomesda literatura universal como o russo Fiódor Dostoiévski, por exemplo. Esse escritor eramuito lido e comentado e Rodion Románovitch Raskólnikov o seu personagem maisadorado. Todos, de acordo com a divisão dos indivíduos feita por Raskólnikov,almejavam, sonhavam ou simplesmente tinham a ilusão de fazer parte da categoria dehomens extraordinários. E, em nome de um objetivo maior, poder ter o direito deinfringir regras sociais.Mestres em anarquismo e vandalismo, a bem da verdade deturpadores de umaideologia. Após lerem apaixonadamente e sem preocupação alguns teóricos anarquistas,esses inocentes “estudiosos” encontravam na depredação de monumentos públicos omeio mais oportuno de lutar contra o Estado.E, é claro, não faltavam os doutrinadores de Nietzsche – para eles, Deus nãomorreu, tornou-se Nietzsche. Em comum, esses nobres vagabundos tinham o gosto pelamúsica, em especial, o som de três instrumentos juntos: guitarra, baixo e bateria.Aos sábados, o “Vaga-lume”, o bar mais freqüentado da praça, organizavashows e festas. O “Lume”, para os íntimos, era famoso por suas apresentações musicais.Naquele sábado, quatro rapazes afinavam seus instrumentos e prometiam umespetáculo musical e cômico. O lugar estava repleto de pessoas, ouviam-se muitasvozes, gargalhadas, tilintar de garrafas... Entre os muitos rostos desconhecidos e outrosnem tanto, vi pequeninos objetos coloridos sobre um espesso cabelo negro. De longe,essas coisinhas vermelhas e prateadas chamavam muita atenção.O quarteto anunciou a primeira música, um punhado de alegres bêbados seguiu osom e se colocou entre eu e a garota de cabelos coloridos por pequenas peças deplástico. O “Vaga-lume” estava lotado demais para o meu gosto, sai e sentei em um banco de concreto em frente à porta do estabelecimento. De qualquer maneira, euconseguia ouvir a música de onde estava sentada.A praça era cercada por árvores, fechei os olhos e senti a brisa noturna... umvento frio e gostoso, os mesmos cheiros adocicados vindos das flores caídas no chão empoças d’água... De repente senti o perfume da flor dama-da-noite, para mim, um cheiroenjoativo... escorreguei um pouco no assento e recostei a cabeça, leve, descontraída...Abri os olhos e qual não foi o meu espanto ao ver a garota das presilhas na minhafrente. Eu a reconheci... era Gabi.Há muitas festas atrás uma colega nos apresentou... lembro que não notei nadade especial nela naquela ocasião e sequer conversamos.Depois eu sempre a via na rua, perto da minha casa... nos bares, festas, shows...ela estava em todos os lugares.Ela sentou ao meu lado, para mim sua presença tão próxima foi como umchoque térmico, passei do frio ao calor em um instante. Duas amigas a acompanhavam,elas sorriam muito, falavam alto, na certa deviam ter bebido alguma coisa, mas aindanão o bastante para uma embriagues. As amigas voltaram para o “Vaga-lume”, Gabificou. Eu consertei minha posição relaxada e sentei como uma boa moça comportada.Procurei um cigarro nos bolsos, ela olhou para mim e sorriu.Percebi que ela também me reconheceu. Devolvi o sorriso...Ela perguntou alguma coisa de que não me lembro mais e iniciamos uma longaconversa.Eu não tenho muitos amigos e, em especial, acho as mulheres um tantodesinteressantes. Porém, Gabi parecia ser uma raridade, tão inteligente quantoagradável. O que ela falava fazia tanto sentido para mim... parecia que havia encontradoalguém como eu. Percebi que meus olhos brilhavam ao olhar para ela. Senti-me umpouco desconcertada com tanta admiração por alguém... não a olhava em seus olhos.Tinha medo de ser aspirada por aquela figura tão encantadora.Ela estava tão desembaraçada... como se me conhecesse de muitos outroscarnavais, suas mãos delicadas, com unhas esmaltadas de vermelho, se movimentavamno ar com tanta graça enquanto ela falava... A calça risca de giz justa, que ela usava,ressaltava seus quadris arredondados e ajudava a dar um ar feminino a um corpo magrodemais para uma mulher.Desde que lembro, nunca tinha notado uma expressão de melancolia ouaborrecimento no seu rosto... Enquanto eu caminhava pela vida como se houvesse cometido um grande e irremediável erro... imperdoável... fadada a pagar por ele até ofim dos tempos.Gabi me convidou a ir a sua casa para uma sessão de filmes hispânicos nodomingo. Eu cheguei a sua casa no início da tarde... as cortinas da janela estavamabertas. Eu hesitei um pouco e pensei em voltar dali. Eu tentava reprimir qualquerpensamento que pudesse insultar-me ou desconsertá-la... seria apenas uma visita, umencontro divertido, uma sessão da tarde diferente. Porém, por mais que eu tentasse meacalmar, muitas idéias inquietantes passavam pela minha cabeça.Tensa, atravessei a rua e toquei a campainha... não demorou, ela abriu a porta.Sorriu ao me ver... senti que não podia temer aquele sorriso acolhedor, quase familiar.Nos abraçamos carinhosamente, seus cabelos estavam presos como de costume. Na sala,Gabi fechou as cortinas vermelhas, ‘como no cinema’ ela disse. Sorri timidamente. Ocômodo ficou levemente escuro e com um tom avermelhado provocado pelo efeito daluz do sol através da cortina vermelha.Primeiro filme, “O crime do padre Amaro”. A representação e a beleza doprotagonista nos encantou, um ator mexicano muito aclamado pela crítica. Durante aexibição do segundo filme, “Carne Trêmula”, senti suas mãos nos meus cabelos... umarrepio forte na nuca e sob a luz avermelhada cai como em um estado de sonho... longedali... senti de novo o aroma doce e enjoativo da flor dama-da-noite... fui envolvida embrumas... cheiros adocicados... mãos suaves... eu não sabia o que fazia ali ou mesmoonde estava, o que não deixava de me causar medo... e desejo. Gabi estava em casa,literalmente, sua desenvoltura e segurança impressionavam.Não! Eu não posso ficar aqui! Empurrei Gabi com força.- O que foi? Não gosta? Perguntou-me com um sorriso perverso...Essa provocação foi irritante... sabia que eu estava gostando.Ela aproximou-se e me beijou os lábios.Maldita! Pensei... não havia como escapar... era um feitiço e eu sentia o seuefeito perturbador, devastador e delicioso.O que aconteceu comigo?Eu não conseguia entender.Ah... e o perfume... aquele perfume da “dama-da-noite” no ar...
